doc Itamar Assumpção
a invenção da escrita da vida como uma aventura da alma
O mundo não cessava de nos contar histórias que não cansávamos de ouvir. Não tínhamos exatamente a mesma maneira de nos interessar por elas. Eu me perdia em minhas admirações e minhas alegrias. (…) Sartre conservava seu sangue frio e tentava traduzir verbalmente o que via. Certa tarde contemplávamos do alto de Saint-Cloud uma grande paisagem de árvores e água; exaltei-me e censurei Sartre por sua indiferença: ele falava do rio e das florestas muito melhor do que eu, mas não sentia nada.
Defendeu-se. O que significa ao certo sentir? Não se entregava às batidas do coração, aos frêmitos, às vertigens, a todos esses movimentos desordenados do corpo que paralisam a linguagem; extinguem-se e nada fica; dava mais valor ao que chamava os “abstratos emocionais”: a significação de um rosto, de um espetáculo, atingia-o sob uma forma desencarnada e ainda sobrava o suficiente para que a tentasse fixar em frases.
"